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Ikigai, de Héctor García e Francesc Miralles — O que uma vila de pessoas longevas pode nos ensinar sobre propósito
Resumos de Livros
November 4, 2026
Por NPOWS New
Por que algumas pessoas parecem continuar curiosas, ativas e alegres mesmo depois dos noventa anos, enquanto outras perdem o entusiasmo pouco depois de parar de trabalhar? Héctor García e Francesc Miralles foram buscar uma resposta em uma pequena vila no norte de Okinawa, uma ilha japonesa famosa pelo grande número de pessoas que chegam a idades muito avançadas. O resultado dessa busca foi um livro curto, acolhedor e muito agradável de ler, construído em torno de uma única palavra japonesa: ikigai, que pode ser traduzida aproximadamente como “uma razão para existir” ou “aquilo que faz a vida valer a pena”.
García nasceu na Espanha e é engenheiro de software. Trabalhou no CERN antes de se mudar para o Japão, onde vive há muitos anos e escreveu o popular livro A Geek in Japan. Miralles nasceu em Barcelona e é escritor e jornalista, conhecido por seus livros sobre desenvolvimento pessoal. Ikigai foi publicado originalmente em espanhol em 2016 e, no ano seguinte, ganhou uma edição em inglês. Desde então, tornou-se um best-seller internacional, traduzido para diversos idiomas.
O que significa ikigai
Os autores descrevem ikigai como aquilo que faz você sair da cama pela manhã. Para algumas pessoas, pode ser o trabalho. Para outras, um jardim, um ofício, os netos ou um grupo de amigos que se reúne toda semana. O ponto importante é que não precisa ser algo grandioso. Segundo os autores, muitos dos idosos que conheceram em Okinawa não falavam sobre ambições ou grandes conquistas. Falavam das pequenas atividades e dos hábitos cotidianos que davam significado aos seus dias.
O conselho dos autores, repetido ao longo do livro, nasce dessa ideia: seja o que for que você faça, não se aposente das coisas que realmente importam. Sua vida profissional pode chegar ao fim, mas ter algo significativo para fazer todos os dias não deveria terminar junto com ela.
Lições da vila da longevidade
O coração do livro é a visita dos autores a Ogimi, uma vila rural no norte de Okinawa que eles chamam de “vila da longevidade”. Durante aproximadamente uma semana, entrevistaram mais de cem dos moradores mais idosos para conhecer seus hábitos e seu estilo de vida.
O que eles descrevem está menos para uma fórmula secreta e mais para uma maneira de viver. As pessoas se mantêm ocupadas, mas sem pressa. Cuidam de hortas, participam de festivais locais e dão muitas risadas. Fazem parte dos moai, grupos informais de amigos que se encontram regularmente, compartilham novidades e oferecem apoio uns aos outros, às vezes durante décadas. Também cuidam uns dos outros. Os autores destacam uma expressão local, ichariba chode, que significa tratar todas as pessoas que encontramos como irmãos ou irmãs, mesmo que seja a primeira vez que nos vemos.
A conclusão dos autores é que propósito e senso de comunidade parecem ser tão importantes quanto qualquer outro fator. Os moradores mais idosos de Ogimi não vivem mais porque descobriram um único truque. Eles levam vidas plenas, mantêm conexões com outras pessoas e têm algo para fazer todos os dias.
Comer um pouco menos e se movimentar um pouco mais
O livro dedica algum espaço à alimentação e à atividade física, embora não tenha a intenção de se transformar em um manual de dietas. Uma expressão se destaca: hara hachi bu, um ditado tradicional de Okinawa que significa, aproximadamente, parar de comer quando se está com 80% da capacidade do estômago preenchida. Segundo a descrição dos autores, a alimentação em Okinawa é variada e baseada principalmente em vegetais, com bastante legumes, tofu, porções pequenas e consumo de chá verde ao longo do dia.
Em relação aos exercícios, a mensagem é que você não precisa fazer treinos intensos. As pessoas entrevistadas pelos autores se mantinham ativas por meio de movimentos leves e cotidianos, como caminhar, cuidar do jardim e fazer alongamentos. O livro apresenta práticas simples como o radio taiso, uma breve rotina de exercícios matinais transmitida pelo rádio no Japão há décadas, além de tradições suaves como ioga, tai chi e qigong.
Flow: perder-se naquilo que você faz
Um dos capítulos mais interessantes relaciona o ikigai à ideia de flow, ou estado de fluxo, descrita pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi. Flow é o estado em que uma pessoa fica tão concentrada em uma atividade que perde a noção do tempo. Os autores argumentam que pessoas que passam mais tempo nesse estado tendem a ser mais felizes e que as atividades capazes de produzi-lo podem indicar o caminho para descobrir seu ikigai.
As recomendações para alcançar esse estado são práticas. Escolha tarefas desafiadoras, mas que não sejam excessivamente difíceis. Tenha um objetivo claro. Elimine distrações e concentre-se em uma coisa de cada vez, em vez de tentar realizar várias atividades simultaneamente. Os autores citam artesãos, artistas e engenheiros japoneses que passam a vida aperfeiçoando uma única habilidade como exemplos de pessoas que transformaram o flow em um estilo de vida.
Propósito, aceitação e resiliência
O livro também recorre a duas formas de terapia. A logoterapia, desenvolvida pelo psiquiatra Viktor Frankl, sustenta que ter um sentido para a vida ajuda as pessoas a enfrentar até mesmo sofrimentos extremos. Já a terapia Morita, desenvolvida no Japão, ensina as pessoas a aceitar suas emoções em vez de lutar contra elas e a concentrar a atenção naquilo que precisa ser feito. Segundo os autores, ambas podem ajudar as pessoas a encontrar e manter seu ikigai.
Os capítulos finais abordam a resiliência. Os autores discutem o wabi-sabi, a apreciação japonesa da beleza da imperfeição e da transitoriedade, e o conceito de antifragilidade, apresentado pelo escritor Nassim Nicholas Taleb: tornar-se mais forte por meio dos contratempos, em vez de simplesmente sobreviver a eles. A vida trará perdas e decepções. Ter clareza sobre o que é importante para você e desenvolver o hábito de se concentrar naquilo que pode controlar ajudam a atravessar essas experiências.
O livro termina com dez regras simples extraídas de tudo o que os autores aprenderam: mantenha-se ativo e não se aposente da vida, vá com calma, não encha completamente o estômago, cerque-se de bons amigos, cuide da forma física, sorria, reconecte-se com a natureza, agradeça, viva o momento e siga seu ikigai.
O que vale a pena ter em mente
O livro é leve, acolhedor e fácil de ler em uma tarde. Sua mensagem central — a de que ter um propósito e manter relacionamentos sólidos são aspectos importantes de uma boa vida — é sensata e amplamente apoiada. Ainda assim, há alguns pontos que merecem atenção.
É uma introdução abrangente, e não um guia passo a passo. O livro aborda muitas ideias, desde alimentação e exercícios até flow, terapia e resiliência. Mas os leitores que esperam encontrar um método detalhado para descobrir seu próprio ikigai podem sentir que a obra inspira mais do que ensina.
O conhecido diagrama do ikigai, formado por quatro círculos sobrepostos que representam aquilo que você ama, aquilo em que é bom, o que o mundo precisa e aquilo pelo qual você pode receber dinheiro, costuma ser apresentado como um conceito tradicional japonês. Na realidade, ele surgiu no Ocidente como uma estrutura para descrever propósito e, posteriormente, foi associado à palavra japonesa ikigai. Autores que estudam a cultura japonesa apontam que, no Japão, ikigai costuma ser entendido de maneira mais ampla e pessoal. Pode ser algo pequeno e cotidiano, sem necessariamente envolver carreira ou renda. Essa interpretação está mais próxima daquilo que os idosos de Okinawa realmente descrevem no livro.
Por fim, as conclusões sobre longevidade apresentadas no livro vêm principalmente das entrevistas e observações dos autores, e não de um estudo científico desenvolvido para determinar por que algumas pessoas vivem mais. Pesquisadores questionaram a confiabilidade de alguns registros históricos de idade em regiões famosas pela longevidade, incluindo Okinawa, embora outros estudos demográficos tenham defendido a validade dos registros excepcionais de longevidade da região. Os padrões de saúde e longevidade de Okinawa também mudaram consideravelmente entre gerações, acompanhando as transformações no estilo de vida. As lições sobre propósito, comunidade e moderação continuam sendo importantes, mas é melhor interpretá-las como aprendizados de um lugar específico, e não como uma fórmula cientificamente comprovada para viver mais.
Então, vale a pena ler?
Sim, especialmente se você procura uma leitura tranquila e inspiradora sobre aquilo que dá sentido à vida. Ikigai não oferece uma fórmula pronta e tampouco é um estudo científico sobre o envelhecimento. O que ele oferece é um lembrete, por meio das experiências de pessoas que viveram muitos anos, de que o propósito não precisa ser grandioso, de que as amizades são importantes e de que continuar participando ativamente da vida é uma das melhores coisas que podemos fazer por nós mesmos.
Leia sem pressa e, depois, faça a si mesmo a pergunta que está no centro do livro: o que faz você sair da cama pela manhã?